Foco na Mídia

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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Dilma incentiva pluralidade da mídia; Aécio favorece o oligopólio



Os modelos de Dilma e Aécio, que disputam a presidência dia 26, têm formas muito diferentes de gerir a educação, saúde, economia, etc.

A relação com a mídia é outro dos muitos contrastes existentes entre os candidatos.

Essa diferença será mais nítida no futuro, quando um deles assumir o Palácio do Planalto, mas, pelo que vêm falando nos últimos meses e durante a campanha, já é possível determinar como cada um tratará a imprensa em um eventual mandato.

Primeiramente, um novo governo de Dilma manteria as políticas atuais de distribuição de publicidade governamental. O Governo é sempre um dos maiores anunciantes do país e essa veiculação de publicidade de programas e avisos supõe mais recursos para os meios de comunicação do Brasil, assim como qualquer anúncio de empresas privadas.

A gestora dessa publicidade oficial é a Secom, Secretaria de Comunicação Social, que atualmente atua segundo a política de levar os anúncios ao maior número de pessoas possível.

Assim sendo, a publicidade oficial do Estado é majoritariamente dirigida aos grandes conglomerados de mídia do país – ou seja, a Grande Imprensa -, que possui maior audiência entre os meios de comunicação brasileiros.

Porém, desde o primeiro Governo Lula, os gastos com publicidade governamental aumentaram, - os dados estão disponíveis aqui - junto com o número de beneficiados, para favorecer meios de comunicação de pequeno e médio porte, que não recebiam grandes incentivos antes de 2003.

Com essa nova política distributiva, veículos de comunicação regionais, digitais e alternativos passaram a receber mais recursos do governo, enquanto os recursos dirigidos à Grande Mídia foram levemente reduzidos.

A intenção é tímida, mas incentiva a diversidade dos meios de comunicação do Brasil, ampliando a pluralidade ideológica e de representação dos jornais, rádios, revistas, etc.

Essa postura provavelmente não seria seguida por Aécio.

A Grande Imprensa conservadora, que apoia os tucanos desde sempre, se sentiu desfavorecida com a maior divisão de gastos públicos com publicidade oficial.

Os conglomerados de imprensa perderam uma parte dos recursos que recebiam e viram seu oponente ideológico – a imprensa progressista, que faz parte da mídia alternativa e inclusive revela escândalos da Grande Imprensa – ser ajudada pelo Governo do PT.  

Como Aécio e Grande Imprensa têm relações estreitas, um eventual governo do tucano iria ceder à influência dos grandes jornais limitando a oferta de publicidade oficial às grandes empresas de comunicação do país.

Isso significa ainda mais recursos para Globo, Folha, Estadão e Abril, e menos ainda para blogs e órgãos de imprensa progressistas como Carta Capital, Brasil 247, Revista Fórum e Jornal GGN. Além, claro, da redução de publicidade dirigida a jornais e revistas regionais, que cobrem os fatos cotidianos de pequenas áreas do país.

É interessante lembrar que, da mesma forma que a Grande Imprensa pressiona os tucanos para receber mais publicidade oficial, a imprensa alternativa pressiona o PT para limitar os recursos dirigidos aos conglomerados de imprensa.

O argumento que sustenta essa postura é o de que a Grande Mídia, que construiu seu “império” durante o regime ditatorial, já possui lucros que provém de suas propriedades cruzadas - das diversas rádios, televisões, jornais, revistas, canais de TV a cabo, editoras, institutos de pesquisa, etc.

Por outro lado, os meios de comunicação alternativos e regionais são exclusivamente bancados pela publicidade que recebem. É um desequilíbrio que surgiu na Ditadura e se mantém até hoje, quase 30 anos depois da abertura democrática.

Com isso, o corte de publicidade oficial dirigida aos pequenos meios de comunicação do país cria problemas para os mesmos. Muitos fechariam por falta de recursos e outros, mais fortes, continuariam de forma absolutamente independente ao Governo.

A oferta de diversidade ideológica seria reduzida junto com a quantidade de meios de comunicação. E, como a Democracia é baseada na pluralidade, diversidade e direito de representação de todos coletivos da sociedade, a diminuição da oferta de meios de comunicação teria um efeito negativo para a democrática formação da opinião pública.

Portanto, o oligopólio no setor da imprensa, que possui uma única ideologia e visão do mundo, seria fortalecido em um eventual governo de Aécio.

Buscando evitar um panorama em que grandes conglomerados de mídia dominem a comunicação do país, a Constituição Federal proíbe a formação de monopólio ou oligopólio na imprensa em seu artigo 220, § 5º – “Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objetivo de monopólio ou oligopólio”.

O artigo, porém, nunca foi regulamentado. A falta de leis específicas que cumpram a determinação do parágrafo 5 do artigo 220 cria um vazio legal que permite a existência de oligopólio na imprensa.

Com isso, os conglomerados da Grande Mídia brasileira concentram audiência e influência, deixando as “migalhas” para outras ideologias e vozes da sociedade.

A solução para a situação seria uma regularização econômica da imprensa, medida que foi aprovada por Dilma em entrevista a blogueiros progressistas, mas que desde o governo de Lula vem despertando a “ira” dos poderosos chefões da Grande Imprensa.

A regularização exigiria por lei que os conglomerados vendessem algumas empresas para chegar a um determinado tamanho, adaptado aos padrões democráticos. Porém, essa medida supõe perda de propriedade e de lucros para as empresas, motivo pelo qual eles - e Aécio, que conta com seu apoio - se opõem a qualquer ação que limite a propriedade cruzada.

Como o oligopólio favorece o discurso único de uma ideologia e exclui outras vozes da produção informativa do país, sua consolidação supõe perdas de características democráticas para a sociedade brasileira.

Os países europeus sabem disso e são exemplo de pluralidade informativa na mídia.

Países como a Espanha, por exemplo, têm grandes meios de comunicação com ideologias muito diferentes. O progressista El País possui audiência pouco maior ao conservador ABC. Com isso, as influências ideológicas dos meios de comunicação se equilibram dentro da sociedade espanhola, pois os órgãos de imprensa progressistas têm o mesmo alcance que os conservadores.

Essa diversidade nos principais meios de comunicação de um país é a base de qualquer Democracia, pois a sociedade forma sua opinião através de diferentes pontos de vistas e enfoques.

Por outro lado, o modelo de mídia concentrada cria uma opinião pública baseada em um discurso único, que favorece, obviamente, uma única ideologia.

Nesse sentido, Dilma pretende dar um passo que fortalece a Democracia do Brasil, ao invés de reduzi-la. Enquanto Aécio, como bom conservador, prefere manter o padrão atual que favorece o ditatorial discurso único na mídia.

Como dito antes, os princípios democráticos estão baseados na diversidade cultural, na pluralidade de ideias e opiniões, na representatividade de todos coletivos sociais e na mescla de ideologias e de enfoques na imprensa.

Quem lute por esses valores fortalecerá a Democracia. Quem lute contra, favorecerá a "Ditadura" baseada na imposição de uma ideologia à sociedade.

Assim sendo, dia 26 o país escolherá se prefere uma mídia plural ou uma oligopolista, pois a vitória de Dilma ou Aécio determinará a consolidação de um dos projetos midiáticos que pretende transformar o país através de uma ou outra ideologia que disputa o poder.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A “espetacularização” dos debates na televisão


Dilma Rousseff e Aécio Neves no debate da Rede Bandeirantes

O debate de ontem (14/10) realizado na Rede Bandeirantes foi marcado por um enfrentamento duro de dois candidatos que não se olharam nos olhos, mas atacaram e foram atacados mutuamente. A postura dos dois era digna de horário eleitoral, onde o discurso de um candidato carece de contextualização e só destaca as informações que fazem bem ao partido.

Sobrou “espetacularização da política”; faltou conteúdo, conhecimento e, no fundo, respeito com os cidadãos.

Aécio chamou Dilma de leviana depois que ela citou o Aeroporto construído em terras de seu tio, por exemplo. No entanto, quem realmente foi “leviano” foi o próprio debate de ontem! Pouco refletivo, imprudente e leve – definições de “leviano” no Dicionário Aurélio. As meias-verdades partidaristas dominaram o tempo dos candidatos e ajudaram a propagar muitas das mentiras que literalmente dominam as redes e as mentes dos eleitores nesse segundo turno.

As propostas e ideias ficaram em segundo plano; enquanto as notícias que saíram eram maioritariamente sobre os ataques realizados. Essa superficialidade gera muita audiência para a Bandeirantes – que foi líder durante da 1h30m que durou o debate -, mas não ajuda objetivamente o eleitor a escolher seu candidato.

Acontece que essa característica leviana é típica do formato da televisão brasileira, que sempre privilegiou o entretenimento e os lucros, deixando de lado a informação imparcial de interesse público e a educação – que são mais importantes em países europeus, por exemplo. Essa prioridade focada no financeiro cria coberturas políticas superficiais com destaques para corrupção e acusações bombásticas, além de telejornais baseados no entretenimento e na espetacularização da notícia através de imagens impactantes e conteúdos superficiais.

Desse foco nos lucros e nos votos surge a ”necessidade” de encontrar um vencedor dos debates televisivos – entre aspas, porque essa necessidade, no fundo, não existe. Os políticos viram atores que interpretam um papel; uma imagem moldada pelas estratégias do marketing político. Quem fizer melhor interpretação – ou seja, quem atacar melhor, transmitir segurança, confiança, caridade, força e firmeza – supostamente ganhará o debate.

Logicamente as preferências partidárias e ideológicas das pessoas condicionam os julgamentos. E essa característica subjetiva acaba com o sentido de escolher um vencedor, pois a maioria das vezes não existe um consenso que permita o julgamento objetivo.

Enfim, a postura dos candidatos espetacularizou o debate. Sendo o PT e o PSDB dois partidos eleitoralmente massificados, os cuidados para evitar deslizes são enormes. Com isso, falta espaço para propostas e sugestões, pois a introdução de uma proposta à essa altura abre campo para mais ataques do rival. 

É um círculo vicioso em que os candidatos atacam para não dizer propostas - e não dizem propostas para atacar.

Quem agradece um debate recheado de polêmica é a Bandeirantes e os jornais: tem material suficiente para chamar atenção do público.

O palco passa a ser visto como um ringue de batalha de onde surgem polêmicas a cada instante, temas que aparecem instantaneamente na imprensa e na Internet, onde as discussões políticas correm soltas. Essa possibilidade de debate nas redes sociais é um espaço para discutir ideologias e visões do mundo, mas é mal utilizada quando os próprios cidadãos incorporam os discursos ofensivo dos candidatos a seu próprio discurso e acabam limitados ao que diz o marketing político.

Por outro lado, através da exploração extrema de detalhes frívolos e espetaculares como os ataques e as meias-verdades de cada candidato, a mídia consegue ascender as polêmicas com frequência, dando mais repercussão aos seus conteúdos e conseguindo audiência, publicidade e, consequentemente, lucros.

Por isso os destaques dos debates normalmente são declarações polêmicas, ao invés de planos de Governo ou contextualizações. Trata-se de uma estratégia dos políticos, da televisão e da própria mídia no geral. É tudo por dinheiro e votos.

Ontem, Aécio usou todas suas perguntas para atacar Dilma; enquanto a petista usou a maioria das suas para comparar seu governo com o de FHC, que inspira o projeto de Aécio. É questão de estratégia para conseguir o voto de um público com conhecimento político limitado pela própria cobertura frívola da televisão e de outros canais de mídia.

Sem dúvida o telespectador pôde tirar suas próprias conclusões e os eleitores de um ou de outro candidato tem mais argumentos para atacar o rival. Mas essa postura dos debates televisivos contribui para o limitado conhecimento político dos cidadãos e não motiva um maior entendimento de temas complexos que são necessários para a inclusão política da sociedade.

Atacando e dizendo que “eu sou melhor e você mente”, os candidatos conseguem convencer seus apoiadores – que podem virar cegos e fiéis, ou seja, tudo que qualquer político deseja -, mas também incentivam o desinteresse da sociedade pela política, pois a mesma continua acreditando que esse tema só é formado por corrupção, debates, eleições e ataques entre partidos.

Ora, a política é muito mais complexa que qualquer debate televisivo. Assim como os fatos são muito mais heterogêneos do que as notícias televisivas mostram.

Claro que a “telinha” permite a transmissão de reportagens profundas e de documentários muito bem contextualizados que de fato aumentam o conhecimento do telespectador.

Mas, como dito antes, a televisão é movida pelos lucros; e para lucrar é preciso audiência; então o formato televisivo naturalmente aponta para uma direção em que intenção de informar o cidadão fica na geladeira, enquanto a prioridade de qualquer rede de televisão do Brasil vira a busca de audiência, de publicidade e de uma audiência que compre os produtos da publicidade.


Para a TV, portanto, quanto mais espetaculares sejam os debates, melhor. 

O debate de quinta-feira no SBT não será diferente.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Análise: Xico Sá pediu que jornais “saíssem do armário” e foi vetado.

Tweet de Xico Sá / Foto: Revista Fórum


Um dia depois dos ataques de Xico Sá à Folha de S. Paulo no Twitter, o jornalista e escritor publicou em seu Facebook uma “nota de esclarecimento” que explica sua saída da Folha.

Em sua coluna semanal no Caderno de Esportes da Folha, Xico publicaria um texto sobre o “Fla-Flu eleitoral” do segundo turno. Mas o texto foi vetado pela direção do jornal.

Na coluna, Xico declararia seu voto em Dilma Rousseff e pediria que os grandes jornais “saíssem do armário”, informando suas posições políticas “como as publicações americanas”. Também “tecia queixas à cobertura desequilibrada da Folha e da imprensa no geral”, como explica a nota.

Segundo Sérgio D’ávila, editor-executivo do jornal, Xico foi vetado de publicar a coluna por uma política da empresa que “aconselha” os colunistas a não fazer “proselitismo eleitoral em seus textos”.

O colunista recebeu a oferta de publicar sua declaração de voto em um espaço de opinião da página A3, mas, por achar que essa não era a “solução para o impasse”, recusou a oferta e pediu demissão do jornal.

Na nota, publicada em seu perfil do Facebook, Xico conta que “defendia na coluna que os jornais assumissem suas explícitas posições”.

E deixou claro que a Folha “é bem melhor em se comparando aos outros jornalões, vide a grande revelação do aeroporto privado de Aécio e o mínimo questionamento do choque de gestão nas Gerais”.

Análise

O desentendimento pode ser fruto exclusivo das políticas citadas por Sérgio D’ávila. Mas algumas características da Folha põem em cheque essa versão.

Em uma página do Grupo Folha, o jornal “estabelece como premissa de sua linha editorial a busca por um jornalismo crítico, apartidário e pluralista”.

Na prática, o jornal aplica essa teoria através da publicação de matérias negativas sobre todos os candidatos; além da pluralidade ideológica de suas colunas - como se as publicações periódicas e as matérias negativas sobre um candidato anulassem o real partidarismo que existe na cobertura geral do jornal conservador.

Independente de tudo, a busca pela objetividade da Folha é real, o jornal de fato busca a crítica e a pluralidade em seu jornalismo, como o próprio Xico Sá disse, mas seu comportamento geral é partidarista para o lado conservador.

Trata-se de uma característica ideológica e histórica do jornal: querer anular ou negar essa tendência natural é uma postura forçada que resulta em medidas pouco transparentes com o leitor.

Xico Sá sabe disso, por isso ia solicitar em sua coluna que os grandes jornais “saíssem do armário”.

Porém, a postura do colunista não agradou os peixes grandes da redação. E Xico se demitiu depois de não se entender com o jornal.

Ora, se o problema é o “proselitismo eleitoral” nas colunas, Reinaldo Azevedo, Gregório Duduvier, Guilherme Boulos, Eliane Catanhêde, entre outros, não poderiam publicar os textos que escrevem – os quatro links contém textos com caráter partidarista. Mas o fazem e ninguém se incomoda a ponto de vetá-los.

Portanto, talvez o problema não seja só o proselitismo – que faz referência ao partidarismo das publicações.

A censura direta por ideologia também não é o ponto chave da questão, pois entre os colunistas citados acima há esquerdistas declarados que conseguem mais audiência que Xico sem ser censurados.

A chave do desentendimento entre Folha e Xico Sá foi a intenção do jornalista de falar sobre o partidarismo dos jornais em uma coluna que pertence à Grande Imprensa.

Como os jornalões poderiam se declarar apartidários depois que um colunista da própria Folha afirmou que eles têm posições explícitas?

Essa declaração de apoio supostamente limitaria a credibilidade dos grandes jornais com seus leitores. Então a direção da Folha vetou o texto de Xico para continuar mascarando o partidarismo do jornal.

Ocultaram inclusive o motivo real do veto à coluna. Pois se dissessem que foi por causa da sugestão de declaração de apoio político, a Internet propagaria o motivo da demissão e o apartidarismo da Folha estaria condenado.

Seria interessante ver o texto vetado de Xico Sá para averiguar os pontos que possivelmente desagradaram a direção da Folha. Mas, com certeza, um deles foi a sugestão aos jornais de assumir “suas explícitas posições”.

Aliás, Xico Sá prestaria um serviço publico ao jornalismo colocando o texto na Internet, pois a sociedade necessita conhecer o verdadeiro lado da Grande Imprensa.

A declaração de apoio de um jornal é uma medida transparente e esclarecedora que faz bem à Democracia, por mostrar quais são as posições dos atores políticos que influem na formação de opinião da sociedade.

Evitar esse posicionamento cria ilusões em muitos leitores.

Nos comentários de notícias da Folha desfavoráveis ao PSDB, é possível ver muitas pessoas reclamando da postura “petista” do jornal, como se ele fizesse campanha para o PT.

A omissão do posicionamento político dos jornais cria essa triste confusão.

Como a Folha vai ser petista se grande parte de sua cobertura é dedicada a atacar as políticas sociais, internacionais e econômicas do Governo Federal?

Muitos leitores não percebem isso. Então chegam a conclusões próprias e limitadas que os conduzem ao erro.

Nenhum comentário da página no Facebook da Carta Capital, que declarou apoio à Dilma, diz que a revista é tucana, pois, além da linha editorial clara, a revista literalmente informa que apoia o PT e ainda explica por que.

É uma postura transparente que esclarece a sociedade. Por isso os jornais dos EUA e Europa declaram quem apoiam.

Entretanto, os grandes jornais do Brasil evitam essa medida, pois, segundo a cínica teoria do espelho, a declaração de apoio partidário no jornalismo atrapalha a credibilidade dos meios de comunicação.

A questão é: o que é mais importante numa sociedade democrática, leitores esclarecidos ou a credibilidade dos jornais? Se as coisas mais importantes de qualquer Democracia fazem referência à maioria, sem dúvida a primeira opção é prioridade!

A declaração de apoio pode condicionar a visão que os cidadãos têm dos jornais. Mas, se tem algo que realmente é “atrapalhado” com a máscara co apartidarismo, esse algo é o esclarecimento dos leitores.

Daí a importância de um jornal informar quem apoia. Ainda mais em época de eleição, quando a sociedade é induzida com mais facilidade a acreditar nas ideias veiculadas pelo marketing político.

Os jornais erram ao se declarar apartidários. Erram de forma egoísta e também conduzem os leitores ao erro.

O Estadão declarou – indiretamente – apoio a Aécio e continua tendo credibilidade. A Revista Fórum e praticamente todos os meios de comunicação progressistas também declararam voto e não perderam leitores por isso.

Com isso, esses órgãos de imprensa aumentaram o nível de conhecimento político dos cidadãos, o que favorece o amadurecimento da Democracia em si.

É hora dos jornais da Grande Imprensa esquecerem o medo de perder sua influência na sociedade para “saírem do armário”, assim como sugeriu o ex-colunista da Folha, Xico Sá.



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Xico Sá se demite da Folha por não poder declarar voto

Xico Sá e os tweets publicados no domingo (11/10) / Foto: Brasil 247

O escritor e jornalista Xico Sá pediu demissão da Folha de S. Paulo depois de ser proibido de publicar sua declaração de voto na coluna semanal que tem desde 2011. Segundo Sérgio D’ávila, editor-executivo do jornal, a intenção de Xico "fere a política do meio de comunicação", que aconselha os colunistas a “evitar fazer proselitismo eleitoral em seus textos”.

“Se quiserem podem escrever artigo em que revelam seu voto e defendem candidatura na pág. A3 da Folha. Esta opção foi dada a Xico Sá, que recusou a oferta”, declarou Sérgio em um email enviado ao jornal digital Brasil 247 que confirmava o pedido de demissão.

No domingo (11/10), Xico disparou ataques no Twitter chamando o jornal de “Imprensa burguesa”. Ele também declarou voto em Dilma Rousseff e perguntou “por que não investigar todos”?, em tweets que vem ganhando repercussão nas redes.

A postura da mídia

Depois da confirmação, a notícia e as declarações de Xico rapidamente saíram em diversos meios de comunicação progressistas que costumam fazer contraponto às informações veiculadas na Grande Imprensa – além, claro da oposição ideológica que existe entre ambos os da mídia.

Os ataques à imprensa conservadora e ao candidato Aécio Neves motivam a exploração do tema por parte dos progressistas e a imprensa alternativa vai fazer o possível para manter o assunto em pauta para afetar a credibilidade do grande jornal conservador.

Por outro lado, a postura da Folha é, no mínimo, contraditória.

O “proselitismo” nas colunas semanais do jornal paulista é algo visível em diversos textos de muitos colunistas. Não declaram voto diretamente, pelo visto graças à uma política pouco transparente do jornal, mas colunistas como Gregório Duduvier ou Reinaldo Azevedo semanalmente fazem textos recheados de referências partidárias e eleitorais.

Hoje mesmo Gregório praticamente declarou voto em Dilma. Não disse literalmente, mas sim excluindo os motivos para votar em Aécio.

A política do da Folha não permite a declaração de voto explícita para não afetar a credibilidade criada pelo apartidarismo artificial e irreal. A Folha vem buscando essa neutralidade através de ataques aos dois lados, uma tentativa de imparcialidade que, no fundo, não passa de parcialidade alternada.

Essa postura do jornal surge quando a neutralidade é confundida com a publicação alternada de matérias negativas.

Obviamente essa prática diminuiu no segundo turno, pois as matérias negativas tem praticamente só o PT como prejudicado.

Mas por esse medo de perder credibilidade, a Folha opta por não ser transparente com seus leitores. Com isso, alguns deles acreditam na fantasiosa preferência “petista” do jornal, principalmente depois de ler colunas como a que Xico Sá publicaria hoje.

As intenções do jornal conservador podem não ser ruins, pois apontam para a tão sonhada objetividade total, porém, a declaração de apartidarismo para alguns cidadãos é receita para conclusões equivocadas da realidade. É uma distorção, uma manipulação limitada do que realmente acontece.

Xico Sá não foi o primeiro e não será o último a abandonar um meio de comunicação da Grande Imprensa por questões ideológicas. Ele “se uniu” ao grupo de Azenha e Rodrigo Vianna e é mais um a ser expulso por divergências políticas com os conservadores “apartidários”.

Só essa circunstância já mostra que a Grande Imprensa tem postura clara e que a mesma é neoliberal. Afinal de contas, dificilmente aparece algum tucano expulso por motivos ideológicos dos principais jornais do país.


Muito pelo contrário. Estão lá e ganham muito bem para falar o que os poderosos querem dizer e ouvir.

A corrupção usada como arma política na Imprensa

O cidadão brasileiro, no geral, tem uma profunda aversão pelas práticas corruptas.

O limitado conhecimento político geral do povo, a ineficiência do Estado em oferecer serviços públicos e as altas taxas de impostos motivam as pessoas a dar especial atenção à corrupção quando o assunto é Política nacional.

Por isso muitos ataques pessoais têm resultados políticos mais eficientes que explicações econômicas complexas.

O cidadão não entende como um país pode ter serviços públicos tão precários enquanto paga altas taxas tributárias. Precisa de uma explicação para entender essa situação.

E a corrupção aparece para levar toda culpa, sendo que a má administração e a falta de planejamento e de previsão também costumam criar muitos gastos a mais na administração pública.

Independente desses fatores, existe um sentimento de repugnância em relação ao político que se relaciona com uso indevido do dinheiro público.

E como no capitalismo uns choram e outros vendem lenços de papel, políticos e jornais usam esse sentimento do povo como arma política para afetar adversários.

Dando mais atenção à corrupção de um partido ou político específico, a “imparcial” imprensa, que conta com a confiança da sociedade, induz as pessoas a acreditarem que uns políticos são menos ou mais corruptos que outros.

Fazem isso de acordo com suas próprias convicções políticas, dando uma ajuda aos partidos que apoiam e incomodando os que se opõem.

Assim sendo, quem só lê os jornais da Grande Imprensa – O Globo, Folha de S. Paulo, Estadão e Veja, por exemplo -, no geral acredita que o Partido dos Trabalhadores é o partido mais corrupto do Brasil.

Por outro lado, quem só lê publicações da Imprensa Alternativa – Carta Capital, Caros Amigos, Brasil 247 e Revista Fórum, por exemplo – provavelmente enxerga mais corrupção no partido tucano.

É uma consequência da credibilidade, do enfoque parcial e da imposição de uma agenda informativa pelo lado neoliberal.

Como os conservadores possuem os jornais de maior audiência no Brasil, a formação da agenda informativa, que define qual tema é atual, é praticamente neoliberal.

Por isso a maioria das pessoas tem a tendência de achar que o PT é o partido mais corrupto do Brasil. Eles não encontraram nenhum grande jornal que afirme o contrário.

Consequentemente, o discurso anti-petista costuma ser uma variante do que diz a Grande Imprensa, que também exerce oposição ao PT, apesar de pontualmente publicar informações desfavoráveis aos tucanos.

Inflação, dinheiro em Cuba “mal explicado”, corrupção... O discurso contra o PT sai nas capas dos grandes jornais diariamente e os cidadãos o adaptam aos seus gostos, opiniões, valores, etc.

Os jornais da Grande Imprensa mantêm em voga certos temas “cabeludos” para os progressistas enquanto colocam na geladeira assuntos negativos para o PSDB.

Essa “estratégia” é visível, por exemplo, na cobertura dos dois Mensalões – o petista e o tucano. O primeiro ganhou um espaço especial na versão digital da Folha de S. Paulo e rendeu matérias longuíssimas em praticamente todos os grandes jornais do país.

O segundo não mereceu mais do que notícias soltas e um ou outro destaque momentâneo. Consequentemente, a população critica muito mais o escândalo petista que o tucano.

A velocidade da Era Digital cria amnésia nae exige que um tema seja tratado diversas vezes para ser considerado dentro da opinião pública. Os meios de comunicação fazem isso para dar mais eco a um ou outro escândalo de corrupção.

Dessa forma a sociedade tende a perceber muito mais o Mensalão petista que o mineiro – nome usado pela imprensa para designar o escândalo dos tucanos.

Claro que os meios de comunicação progressistas também atuam de forma similar, mas do outro lado. Ainda mais em época de eleições. 

A diferença de audiência implica um outro nível de influência dos progressistas na sociedade. Mas as práticas se repetem em menor escala.

É questão de ideologia e de enfoque.

Não é possível pedir que os jornais apresentem os fatos de uma forma diferente, pois, além de ser a visão do mundo deles, os mesmos mantém a linha da veracidade e não costumam afetar os direitos de terceiros.

Qualquer reclamação nesse sentido teria o efeito inverso, pois é mais grave criticar e cercear a publicação de um jornal que se defender de alguma forma.

Porém, é necessário alertar os cidadãos de que a imprensa é partidária. Ela é um verdadeiro ator político – basta lembrar que esses mesmos grandes jornais ajudaram a acabar com a Democracia na metade do século passado; eles têm um poder de influência enorme na sociedade.

Por isso é desleal declarar um apartidarismo que não existe. O Grupo Globo é um dos conglomerados mais neoliberais do Brasil, mas a Seção I, letra “i” de seus Princípios Editoriais diz claramente que é “apartidário”.

Ora, enganam o leitor descaradamente!

A chegada da Internet quebrou um pouco esse modelo. Pois a imprensa alternativa realiza o contraponto informativo que, além de desmascarar o partidarismo da Grande Imprensa, também oferece outros pontos de vista dos fatos.

Porém, a balança da informação tem muito mais peso no lado conservador. A desconcentração de audiência no Brasil só acontecerá a longo-prazo se forem realizadas algumas medidas econômicas que regularize o estabelecido na Constituição e limitem o oligopólio existente nos meios de comunicação.


Até lá a Grande Imprensa vai ditar quais temas merecem atenção e quais devem ser rapidamente esquecidos para favorecer certos projetos políticos que compactuam com seus interesses.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Adeus imparcialidade: mídia também faz campanha nas eleições

Meios de comunicação progressistas à esquerda; conservadores à direita


Os últimos números do Ibope e do Datafolha mostram um país dividido. O empate técnico anunciado nos números criou uma situação política em que tudo pode acontecer. O clima é de vale tudo na política nacional.

A imprensa entrou na campanha faz tempo. Mas suas publicações nunca foram tão partidarizadas como agora.

O cidadão pode esquecer o jornalismo imparcial até dia 26, pelo menos, data da celebração do segundo turno.

Até lá, a ideia é deixar de lado a ética e a formação de opinião pública desinteressada para dar lugar ao puro discurso panfletário em jornais, rádios, televisões e revistas do país. As peças foram selecionadas e o poder está em jogo.

A imprensa brasileira está tão polarizada quanto a sociedade.

A Grande Mídia – Globo, Estadão, Veja e Folha – embarcou na campanha mais agressiva das últimas décadas.

Por outro lado, a Imprensa Progressista, que nunca escondeu sua preferência política, defende o PT dos ataques midiáticos e faz o possível para difundir o contra-ponto das informações diariamente difundidas na Grande Imprensa.

Os progressistas destacam as conquistas do PT nos últimos anos e deixam claro que Aécio pode por “tudo a perder” caso seja eleito. Supondo que Aécio acabará com as conquistas progressistas do país, a intenção é criminalizar os grupos conservadores da sociedade para difundir um “discurso do medo” que traria resultados positivos para a campanha petista ao mostrar o lado negativo das pautas dos tucanos.

Dessa forma, a oferta informação nacional chega num equilíbrio que corresponde com a polarização da sociedade: cada meio de comunicação defende um dos projetos de governo que disputam a presidência – o neoliberal conservador ou o desenvolvimentista progressista.

Por outro lado, a Grande Mídia joga de forma oculta, como de costume. Somente o Estadão declarou, em editorial, seu apoio ao PSDB. Mas conglomerados como as Organizações Globo ignoram o apartidarismo – que, está declarado em sua Seção I, letra “i” - para conseguir mais votos aos tucanos.

Através de uma retórica imperceptível para os desatentos, os principais jornais do país questionam insistentemente a conduta petista e enfatizam seus escândalos de corrupção enquanto desconstroem a campanha do mesmo – a Folha, por exemplo, vem informando como e onde o partido atacará o rival para defender os tucanos das investidas.

Os grandes meios de comunicação também recebem informações privilegiadas que são muito bem aproveitadas em sua cobertura diária.

Não é a primeira vez que a campanha da imprensa conservadora se nutre dessas informações vazadas por atores políticos interessados e desconhecidos, por enquanto – o depoimento de Paulo Roberto Costa, delator do escândalo da Petrobrás, à Justiça Federal de Curitiba foi realizado na quarta-feira (08/10) e na quinta (09/10) as informações do mesmo já estavam na capa de grandes jornais.

Alguém "de dentro" facilitou essas informações aos jornais.

Essa prática não é completamente condenável. Grandes escândalos de corrupção foram desvendados com infiltrações desse tipo.

Porém, essa conduta da imprensa oferece dois problemas: as denúncias não foram averiguadas nem julgadas, mas são publicadas com tanto destaque que tem efeitos políticos similares à prisão de alguém da alta cúpula do partido.

Além disso, o leitor que acredita na neutralidade dessa imprensa não imagina que a mesma esconde os escândalos tucanos para destacar somente os petistas. O falso apartidarismo engana a sociedade no geral.

Enfim, nessa campanha, ambos os setores da imprensa se opõem como evolucionistas e religiosos discutindo a origem do ser humano. Defendem com unhas e dentes o projeto que acreditam ser melhor para o Brasil e farão o possível para levar o candidato que representa esse modelo ao Palácio do Planalto.

A derrota nas urnas significa perda de poder econômico e político de um dos setores da imprensa.

Nesse sentido, a Imprensa Progressista tem mais a perder que a Grande Imprensa.

Apesar dos governos petistas terem ampliado a quantidade de meios de comunicação que recebem publicidade governamental – medida que oferece mais renda para os jornais menores - os conglomerados de mídia continuam recebendo milhões a mais que qualquer outro jornal progressista.

O oligopólio da imprensa só teme uma possível – e improvável – democratização econômica da mídia, que limitaria suas propriedades cruzadas. Além, claro, da fragilidade que o Governo Dilma oferece às suas relações políticas e comerciais com os americanos.

Porém, a Grande Imprensa continuará existindo como hoje independente de quem esteja no poder.

O mesmo não pode ser dito aos meios de comunicação progressistas.

Aécio Neves é reconhecido por sua tendência de calar jornalistas – os mineiros sabem bem disso – e provavelmente vai suprimir a publicidade governamental dirigida à jornais que se opõem às suas ideias.

Para o jornalismo regional e o progressista, isso é uma tragédia. Muitos meios de comunicação fechariam e, com isso, a oferta de informação plural, que é direito do cidadão,seria diminuída e reduzida, ampliando o poder de influência dos grandes jornais do país.

Menos pluralidade nos meios de comunicação significa menos diversidade de opiniões e, consequentemente, menos estabilidade na Democracia.

Portanto, a imprensa progressista tem muito mais a perder que a Grande Imprensa.

E o PT perde junto com seus apoiadores.

A volta do panorama midiático dos anos 90 tiraria voz e poder de influência da esquerda. 

Não ter oposição da mídia progressista é o cenário que todo conservador deseja para se perpetuar no poder.

O aumento de conservadores no Congresso nacional já favorece a aplicação de medidas direitistas no Brasil. Livrar-se da imprensa progressista é tudo que eles precisam para ter aplicar suas pautas na sociedade brasileira.

Assim sendo, a vitória de Aécio nas eleições do dia 26 seria a cereja do bolo do poder da direita: a esquerda estaria condenada a perder grande parte da influência que conseguiu nas últimas décadas e o país entraria na etapa mais conservadora do século XXI.