O despejo de 250 famílias de um prédio no Centro de São Paulo
é um bom exemplo para mostrar como o enfoque da mídia e a própria estrutura da
notícia - produto básico do jornalismo na Internet – condicionam a visão que os
leitores têm sobre os fatos.
Segundo o enfoque de cada meio de comunicação, o leitor terá
uma percepção ou outra sobre o tema.
Essa questão do enfoque é a principal
diferença entre os meios de comunicação corporativos e os independentes –
também conhecidos como Grande Imprensa e Imprensa Alternativa
A primeira, que no
Brasil tem um enfoque mais conservador, costuma deslegitimizar os movimentos
sociais quando não questiona informações policiais e institucionais. O segundo
tem a tendência de defender manifestações e manifestantes, criticando a postura
da imprensa e uma suposta arbitrariedade dos poderes públicos.
Para exemplificar, selecionei dois titulares sobre a
reintegração de posse de hoje. O de cima é da Folha de S. Paulo, tradicional
jornal conservador da capital paulista. O segundo é do Spresso SP, um jornal
digital com preferências políticas alinhadas à esquerda.
Os titulares se parecem, mas algumas palavras-chave distorcem
completamente o entendimento que o leitor tem dos fatos.
![]() |
Titulares da Folha de S. Paulo (acima) e do jornal Spresso SP (abaixo) |
O titular da Folha destaca
o “confronto”, o “pânico” e os saques que aconteceram no centro da cidade. Cita as
70 prisões, mas não entram em mais detalhes sobre ela, o que mantém o destaque
nos conflitos.
Por outro lado, o Spresso SP destaca somente as prisões da Polícia:
mulheres grávidas, crianças e idosos. Cidadãos perigosos (ironia) que ficaram
horas sem água nem comida.
Quem ler a notícia da Folha provavelmente acreditará que a
culpa da confusão é dos sem-teto.
Quem ler a notícia do Spresso SP vai se indignar com a
Polícia. Concordam?
Que tal uma olhada nos comentários das notícias para checar
essa ideia:
![]() |
Comentários da publicação do Spresso SP no Facebook |
Perceberam as gigantescas diferenças entre os comentários das páginas? A forma de cobrir os fatos criam esse tipo de limitação de opinião. Acreditamos somente no ponto de vista que gostamos e, dessa forma, eliminamos os demais, o que limita nossa capacidade de compreensão da realidade.
Além disso, é impossível determinar com absoluta certeza se a postura de cada jornal atrai esse público ou se as próprias publicações criam essa opinião nos leitores. Isso porque, no fundo, é um pouco de cada. Os leitores simpatizantes de um jornal se mantém fiéis ao mesmo enquanto o meio de comunicação condiciona sua visão do mundo através de enfoques predeterminados.
Ou seja, publicando notícias do mesmo tema sempre com o mesmo
enfoque, o jornal influencia no modo que a pessoa vê o tema tratado. Como a
Folha costuma destacar as confusões e os conflitos das manifestações, seus
leitores tendem a ver os mesmos culpando os manifestantes.
Como o Spresso SP costuma publicar os fatos supondo que a
culpa dos conflitos é da Polícia, seus leitores tendem a acreditar que a
Polícia é a criminosa.
A realidade é muito mais complexa e não “cabe” no formato da
notícia jornalística, por isso os enfoques das mesmas tende a destacar um ou
outro ponto de vista.
Seria necessário contextualizar e explicar os antecedentes
dos acontecimentos para uma maior compreensão. Mas isso levaria muito tempo,
coisa que não existe na produção de notícias.
Então a contextualização dos fatos é responsabilidade de
reportagens, editoriais e outros gêneros mais subjetivos, enquanto a notícia se
mantém somente no que aconteceu.
Imagine um jornal televisivo transmitindo notícias que
explicam todo contexto dos fatos. Teria notícias de 5 minutos ou mais – uma notícia
grande normalmente não passa de 3 minutos – e teria que aumentar seu tempo de
transmissão.
É um problema que as pessoas devem compreender para não cair
no erro de acreditar completamente e cegamente em tudo que leem.
A notícia jornalística
Esse gênero jornalístico é um dos mais simples e rápidos do
jornalismo. Um pequeno texto publicado por alguém já vira notícia. Deve ser
objetiva, de interesse público e precisa responder às seis perguntas: o que
aconteceu, com quem aconteceu, quando aconteceu, onde aconteceu, como aconteceu
e por que aconteceu.
Dessas seis perguntas, somente UMA corresponde ao contexto dos fatos: o
“por que” aconteceu. Dependendo do assunto tratado, essa pergunta fica
esquecida nas últimas linhas, enquanto as primeiras buscam responder as demais.
Com isso, as pessoas ignoram os motivos que causaram o fato
tratado. Dou um exemplo. Nenhuma notícia sobre esse despejo de hoje buscou
entender o que leva uma família a ocupar um prédio.
Isso porque elas pretendem contar somente o ocorrido,
destacando o que considera mais importante.
Dessa forma "esquecem" um contexto
extremamente importante para a real compreensão do ocorrido e as pessoas acabam
assimilando somente os fatos destacados nos jornais que leem.
E é então que acontece a famosa “manipulação”. As pessoas que
não questionam as informações e não buscam contextos ou outros pontos de vista
simplesmente assimilam o que a notícia diz. Aceitam e incorporam o ponto de
vista que conhecem acreditando ser o correto.
Como um juiz pode julgar um caso conhecendo somente um lado
dos fatos? Seria um julgamento justo?
Dependendo do jornal que lê, o leitor vai avaliar condutas e
posturas dos atores envolvidos e, com isso, acabará culpando a Polícia ou os
manifestantes, sendo que não existe um culpado exclusivo.
O que sim existe é um contexto enorme por trás de cada
ocupação. Desde famílias que perderam a casa por inadimplência até o Policial
que detesta qualquer manifestação e parte para a agressividade sem considerar
que está batendo num ser humano.
A notícia simplesmente não consegue englobar todos essas
histórias. Por isso ela se mantém no que aconteceu e oferece um relato parcial
ao leitor.
É complicado dizer se isso é ético ou não... É simplesmente
um gênero jornalístico com certos limites, como todos outros.
Nenhuma notícia pode ser tão ampla a ponto de englobar todos
pontos de vista. Por isso é extremamente
importante ler diferentes meios de comunicação.
Somente conhecendo diferentes pontos de vista podemos ampliar
nosso conhecimento sobre os fatos.
Hoje não teremos reportagens longas sobre a necessidade de
Reforma Agrária ou sobre as ocupações ilegais dos sem-teto. Os conflitos e as
imagens registradas no centro de São Paulo foram chocantes demais para esse
tipo de cobertura. Então os jornais focam neles.
É dever do jornalista conhecer os contextos dos fatos, mas eles simplesmente não podem
colocá-lo dentro de uma limitada notícia de Internet. Não entra nesse gênero e por isso os fatos são tratados de forma parcial. Nesse caso não podemos falar de manipulação de má-fé.
Porém, é importante ter esse conhecimento na hora de consumir os “produtos”
dos jornais. É a melhor forma de não limitar nosso conhecimento ao que eles dizem. Além disso, trata-se de uma ótima maneira de criar consciência crítica nos cidadãos, algo que está em falta na
sociedade brasileira.
Nenhum comentário:
Postar um comentário